A gente se encontra na pulsação

As tradições populares surgem para atender necessidades fundamentais daqueles que delas participam. Se formatam pelos repetitivos fazeres ao longo do tempo e guardam preciosos princípios que, no meu entender, estão intimamente conectados com os princípios que regem a natureza. O que me leva a óbvia, mas também esquecida e negligenciada constatação de que nós, seres humanos, também somos natureza.

Esse esquecimento e negligenciamento da nossa própria natureza e da conexão com a natureza como um todo é a razão de inúmeras situações e procedimentos que não funcionam nas nossas vidas, que não suprem nossas necessidades mais básicas e mesmo assim passamos por elas diariamente.

Uma de nossas necessidades mais básicas e que está intimamente ligada a nossa natureza é o encontro com o outro. Inicialmente, porque é só através dele que nossa espécie continua. E também porque é através do encontro que temos a possibilidade de melhorar e de crescer enquanto ser humano.

Com as tradições do Maracatu Rural e do Cavalo Marinho aprendi um jeito de fazer música, dança e teatro; e com minhas atividades de oficineiro percebi que esse fazer é regido por determinados princípios, que procurei então reconhecer e organizar. Hoje, uma das minhas principais motivações é mostrar as possibilidades do uso desses princípios fora do contexto dessas tradições e verificar possíveis aplicações em outras atividades, além da música, da dança e do teatro.

Na minha percepção, o principal elemento desse jeito de fazer é a pulsação. Todo fazer tem uma pulsação, mas nessas tradições, ela é regular e facilmente perceptível. Outro importante aspecto é a relevância do corpo e da conexão com seu interior. É fundamental a compreensão de que tudo acontece no corpo e através dele. Que tudo começa e se mantém no interior do corpo e o que aparece é o que transborda. Dentro, é um só fazer. E é só ao transbordar, quando passa a ser visível ou audível, que esse fazer se diferencia em música, dança ou teatro. E mesmo aí, são tão conectados, que digo sempre que é possível ouvir com os olhos e ver com os ouvidos. Isso é o que me leva a investigar outros transbordamentos possíveis para esse fazer interior.

Independente da aplicação em si, é muito interessante ver que uma das mais potentes possibilidades que surgem quando fazemos algo seguindo esses princípios, que tem a pulsação como principal elemento, é o encontro. O encontro com nós mesmos, porque precisamos estar na presença e empenhados; e o encontro com o outro, pela simplicidade e clareza.

Lembrem que falei que essa pulsação tem como característica ser regular e facilmente perceptível. Exatamente por essa regularidade, que não quer dizer estática, é que ela se torna facilmente perceptível. E essa percepção, por ser inerente à nossa natureza, é orgânica, natural e independente da cultura. É uma possibilidade, antes de cultural, humana. Está no coração, na circulação, no andar. Tanto que praticamente todas as culturas tem sua tradição onde o fazer segue uma pulsação regular e facilmente identificável.

Na música, a pulsação também é conhecida como tempo, batida, beat. E só precisamos de duas batidas para que essa pulsação torne-se identificável. E com isso já se cria uma circunstância incrível de encontro. Porque essa pulsação, esse tempo é o mesmo pra você e pro outro. E se o meu fazer e o do outro seguem essa pulsação, estamos juntos através dela. Estamos juntos e ao mesmo tempo tudo podemos fazer.

Mas a pulsação é o elemento. O princípio descrevo aqui:

Nesse jeito de fazer, o fazer segue uma pulsação regular e identificável, de forma clara e precisa.

É algo muito simples, mas que não pode ser subestimado, porque exige empenho e presença. Sem presença perde-se a pulsação e sem empenho a pulsação não se mantém nessa regularidade dinâmica, orgânica e perceptível.

Quando tomei consciência da potência desse encontro através de um fazer que segue uma pulsação regular, dinâmica e organicamente perceptível, fiquei encantado. Passei a ver o mundo como um grande organismo pulsante. É algo que já sabemos, só precisamos ter consciência.

Finalizo convidando vocês para essa atenção e observação de como a natureza  está repleta de pulsações regulares e extremamente criativas. Em seguida, perceber essa pulsação no interior do nosso corpo e assim deixar o encontro acontecer.

Saudações, gratidão.
A gente se encontra
na pulsação.

Foto de capa: Renata Pires/Ricardo Moura

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Músico, ator e dançarino e um dos fundadores do grupo musical Mestre Ambrósio. Em carreira solo criou os espetáculos “Espiral Brinquedo Meu”, “Por Si Só e “Eu Sou”. É fundador e coordenador do grupo Boi Marinho e junto com a Batebit Artesania Digital, desenvolveu dois instrumentos digitais de música e dança. No cinema, atuou nos longas “Baile Perfumado”, “O Homem que Desafio o Diabo” e “A Luneta do Tempo”. Também desenvolve um trabalho de formação, atua na criação de trilhas sonoras e como consultor, preparador, diretor e palestrante.

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