A eterna manhã de uma voz

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Foto: Lizandra Martins

Em meados dos anos 1990, houve o final de uma manhã. Era mais um dia que despertava nos estudantes aquela sensação boa de “estamos neste lugar porque gostamos; e não porque fomos obrigados a estudar”. O Centro de Artes e Comunicação da UFPE promovia um de seus eventos culturais, festejando alguma data em especial. Não lembro qual. Provavelmente deveria ser a comemoração do Dia da Música, em que vários artistas e aspirantes se apresentavam dentro de uma programação previamente montada, mas que também abria espaço para os corajosos que se dispusessem a arriscar alguma performance improvisada.

Ao meu lado, assistindo às apresentações, estava Zizo, poeta, desenhista e editor de fanzines, cuja obra e personalidade inspiraria, duas décadas depois, a criação do personagem homônimo do filme A Febre do Rato. Como atento observador das pessoas, Zizão ficou maravilhado ao ver uma estudante do curso de Radialismo surgindo, em meio à plateia, para cantar no hall do prédio. Então, virou-se pra mim, com seu contumaz sorriso, e apontando discretamente para a jovem, disse: “Essa daí vai longe”. Na boca de um espectador qualquer, a frase soaria como um comentário clichê, mas, em se tratando de Zizo, com sua alma de mestre, a observação deveria ser levada a sério e este se tornou um dos muitos momentos que guardei na minha memória de ouvinte de música.

Não demorou muito tempo e lá está a previsão zizoniana se concretizando. Isaar começava, em 1997, a fazer seus primeiros shows com o Comadre Florzinha, grupo formado por, entre outras, Karina Buhr e Alessandra Leão. O conjunto tinha como principais características a percussão, as batidas e as letras atadas à cultura popular brasileira. O canto das comadres possuía como referência vozes sem burilamento acadêmico. A interpretação atendia às origens e sotaques regionais das moças, sem estar presa a técnicas e a maneirismos. Essa foi a escola de Isaar França, que, antes, já se portava como uma brincante dos maracatus e das festas populares de Pernambuco.

Desterro – Comadre Florzinha by dianavalentina

As garotas, que estavam naquela maravilhosa fase dos vinte anos, chegaram a dividir uma casa no Poço da Panela, onde estreitaram a amizade e a afinidade sonora – algo que atendia tanto à demanda financeira quanto ao casamento artístico. Cheguei, inclusive, a entrevistá-las, em 1997, para uma matéria, no Jornal do Commercio, sobre jovens que dividiam o mesmo teto fora da casa dos pais. No início de suas carreiras, outras bandas tiveram essa experiência coletiva, como, por exemplo, os Rolling Stones. A convivência intensa acaba se tornando um importante instrumento para a formação musical, estética e comportamental de um grupo musical, até mesmo para a extraordinária descoberta de que, sim, se pode compor!

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Alessandra Leão, Karina Buhr e Isaar. Foto: Divulgação – Fanpage Isaar

Em paralelo à temporada vitoriosa com a Comadre Florzinha, na qual permaneceu até 2004, nossa heroína foi convidada, em 2001, para integrar um outro projeto exitoso da música pernambucana, a Orquestra Santa Massa, que reunia uma variedade de músicos competentes, como DJ Dolores, Mister Jam, Fábio Trummer e Maciel Salu. Nele, Isaar pôde prosseguir no amadurecimento como intérprete, compositora e performer. O trabalho da superbanda recebeu elogios e aplausos por onde passou. Posteriormente, a cantora emprestou sua voz e capacidade criadora a uma nova iniciativa, DJ Dolores & Aparelhagem, em 2004.

A Dança Da Moda by DJ DOLORES

Dois anos depois, Isaar mergulhou na concepção e no lançamento de seu primeiro CD solo, Azul Claro. Chegava a vez de levar seu nome à frente de um álbum. Nele, a artista expôs o apuro do bom gosto e da sensibilidade, maturado ao longo dos últimos anos. A imagem da capa sugeria uma atmosfera intimista, um Kindof Blue, mas a alegria inata em Isaar não lhe deixa pegar o rótulo, e ela logo surge na capa do disco Copo de espuma estampando seu cativante sorriso, expressão que ilumina o palco, antes mesmo de começar a cantar.

E, assim, “A sorrir…”, Isaar já está há quase 20 anos na profissão de artista, com o pé no chão e na estrada, sabendo que cantar é “buscar o caminho que vai dar no sol”. Desta maneira, vem mantendo a tradição andarilha dos cantores populares, como Luiz Gonzaga, nos anos 1940/50, quando o rádio passava a ser massificado no Brasil como principal veículo para a divulgação de músicas.

Hoje, muita coisa nesse mercado musical mudou e melhorou, principalmente em termos de tecnologia de gravação e de promoção, mas isso não impediu Isaar de levantar uma antiga bandeira, através de um cartaz em papel cartolina (“Rádio é concessão pública! Música de qualidade!”) no protesto na Avenida Conde da Boa Vista, realizado no histórico mês de junho de 2013, com as manifestações nas ruas das capitais do país. Vi, em meio aos manifestantes, a artista defender o seu território, que é repleto de bons músicos, mas muitos ainda desconhecidos do grande público. A ficha técnica de seus discos é uma das provas desse manancial ignorado.

Com duas décadas de carreira, a cantora, que ainda é uma das poucas mulheres a viver essencialmente de música no estado, e a sua geração, que se uniu na força da mútua colaboração, vem escrevendo o seu capítulo na história da música pernambucana.

Essa geração de Isaar é um contraponto ao marasmo que Recife viveu décadas antes, até mesmo porque a cidade e seus artistas foram vítimas da falta de políticas estruturantes para a cultura. Essa geração é produtiva, alia liberdade estética a profissionalismo, alimenta com garra a vontade de vencer, sem perder a ternura e a poesia.

Uma amostra do cumprimento desses preceitos é que a compositora, em paralelo aos seus discos solos, ainda se lança em desafios, como a participação nos trabalhos de outros músicos e a composição de trilhas sonoras, como a do espetáculo de dança Leve.

Isaar, com seu belo rosto de menina sapeca e destemida, possui um elemento crucial para a sobrevivência da alma do artista, manter viva a criança dentro de si. Ella Fitzgerald, a maior de todas (ou seria Elis Regina mesmo, como disse Bjork?), tinha um inacreditável timbre juvenil, mas sabia transformar-se em várias personagens, seguindo cada emoção das canções. Assim como Elis, cantava sorrindo, sem esconder a felicidade de fazer o que gostava.

Assim como Ella, sabe Deus o quanto Isaar (e várias cantoras, mundo afora) lutou para conseguir ter e manter uma carreira artística, para permanecer no moto-contínuo do processo de criar, produzir, elaborar, testar, provar, agregar e exibir seu produto imaterial final. A ela, e a todas elas, o nosso respeito.

De seu novo disco, ouvi duas faixas que mostram o quanto vem ficando cada vez melhor. As referências e influências se mostram mais sutis, as canções estão mais arrojadas. Das 12 músicas, cinco são de sua autoria, há duas parcerias com Lito Viana e Lucas Vasconcelos, e gravação de composições de Cássio Sette, Ângelo Souza (Graxa), Beto Villares e… Zizo! O mesmo que, em sua antevisão, afirmou que Isaar ia longe.

06. Isaar – Casa Vazia by outros críticos

Sim, ela está no imensurável caminho do “longe” e parece não querer saber qual é a distância. Desde que esteja feliz no trajeto.

por Débora Nascimento.

Publicado originalmente na coletânea no mínimo era isso: 10 bandas, 10 ensaios

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Jornalista e repórter da revista Continente.

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