a crítica como prática neobarroca

o fazimento dessa escritura não deve ser científica, rígida (já que o seu objeto de estudo/análise se localiza, cartograficamente, no campo da arte). uma escritura que dialogue com seu objeto, que perpasse as sensações e pulsões da obra; que não tente conter ou catalogar desejos, mas que lhes empreste corpo, que lhes proporcione adensamento

dar corpo musical-crítico é adentrar, habitar a obra

é potencializar (caso haja) suas possibilidades inventivas através da ampliação do seu working space

por que traduzir a música (arte)
em delimitações científicas duras (cultura)?

se a música é poesia, então ela também é espanto, ekplêtton, nunca prosa (dià lógon)

não se trata de instrução, de clareza elucidativa e não faz sentido que sua representação, seu significante escritural, também o seja, pois essa visão funciona como um instrumento de castração do objeto, transforma-o em cultura infértil

a crítica é um ato escritural

o fazimento de uma escritura que seja barroca
um desperdício, um fazer cujo fim é ele mesmo

contrariamente à linguagem comunicativa, econômica, austera, reduzida à sua funcionalidade – servir de veículo a uma informação – a linguagem barroca se compraz no suplemento, na demasia e na perda parcial de seu objeto. (severo sarduy)

resposta poética para a seguinte situação:

o que fazer ao estar frente a frente com um objeto não representável?

uma das saídas é circundar o significado

que se encontra encoberto por uma névoa de possibilidades
por significantes diversos
criando assim uma polissemia também visual (uma costura de símbolos)
como forma de representá-lo (escrituralidade)

algo está lá
no centro furioso de uma espiral de possibilidades
(uma obra [que se situe no campo da ARTE] é uma galáxia)
mas não pode ser discernido

o máximo que se pode fazer é contorná-lo

inserindo signos  potentes

para delinear + ou – a sua posição

sem nenhuma mensuração exata

a perda do objeto, da informação direta –  o realocamento do objeto em um lugar da linguagem que não é identificável enquanto certeza. o vazamento, através de um profundo corte na carne, de signos e signicantes que jorram, se chocam, se friccionam, trepam. o resultado desse erotismo não podia ser outro senão o GOZO, o desperdício erótico que dispensa finalidade. joga luz a si mesmo, encerra-se, finda-se no fazer.

por Jocê Rodrigues.

Imagem de capa: Galáxias, de Haroldo de Campos

Share Button

Jornalista, escritor e poeta, autor dos livros "As Máquinas de Deus" (ed. Multifoco) e "Luna: o canto que também provoca maremoto".

Seja o primeiro a comentar:

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.